
1.15h - Abro a porta, acendo a luz, dou dois passos, olho à volta, fecho a janela que estava aberta, com o cansaço, físico e psicológico, nem me dou ao trabalho de correr a cortina... Abro a porta do armário, tiro de lá a almofada...
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1.17h - Deito-me, finalmente, apago a luz... O silêncio... Perturbador... Tão perturbador que me perturba a alma... Penso em ouvir música, para quebrar o silêncio, a solidão, a angústia... Ouvir um cd está fora de questão: teria de me levantar e acender a luz... Por vezes a tristeza só fica bem com o escuro, ou pelo menos é assim que o sinto... E depois, o cd seria muito bem escolhido: ou o Segundo dos Toranja, com baladas que nos põem a pensar, ou o cd do concerto da Aproarte 2005, com um belíssimo segundo andamento do concerto para piano de Grieg, ou então a terceira sinfonia de Rachmaninoff, toda ela repleta de motivos que só nos trazem a saudade à memória e ao coração... Tudo isto me faria sentir mais deprimida ainda, talvez chorar, talvez só conseguir adormecer às quatro da manhã... A opção, penso eu, foi bem feita... Nada de músicas que tenham carga emotiva para mim, tudo ao calhas... Decido-me então a ligar o rádio, mesmo às escuras, sem qualquer problema... Eu a tentar fugir do que sabia que aconteceria por certo mas a primeira voz que ouço é de Sara Tavares... Sei lá em que emissora está o rádio sintonizado, nem tão pouco me importo com isso... Só quero cortar aquele momento... Ela canta "Ser poeta (Perdidamente)", o soneto de Florbela Espanca, musicado inicialmente pelos Trovante, bem, pelo João Gil, naquela versão que estava a ouvir, interpretada pela Ala dos Namorados (que conta também com o João Gil) com a participação especial de Sara Tavares... Mesmo tentando fugir, acabei por ouvir o que não queria... Estou deitada de barriga para baixo, as mãos acima do peito, quase que envolvendo o pescoço... Sinto o coração a bater... Talvez um pouco mais acelarado do que devia... Tento controlar... Passados alguns momentos, já nem me lembro que o meu coração bate... Mas acho que ainda continua a bater... Ou será que não? Penso na vida, penso na morte, penso...
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
(Ser poeta, Florbela Espanca)
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1.18h - Ao que a poetisa diz, ser poeta é ter a alma repleta, repleta de amor e de ódio, repleta de magia e banalismo, repleta de nós e dos outros, repleta do conhecido e do desconhecido, repleta de felicidade e de angústia, repleta de tudo e repleta de nada... Perdidamente... Sim, a minha alma está perdida... Perdida essencialmente de mim e em mim... Dúvidas, incertezas, solidão... Perdidamente perdida... Talvez nunca poderá ser encontrada... Acho que ainda demora algum tempo a encontrar o profundo "eu" de alguém, muito mais demora quando se trata de nós próprios... Perdidamente não encontrada... Recordações... De um passado que teima em permanecer na minha memória... Uma noite quase fria, um olhar que quase levava a outra acção, mais tarde, um outro olhar, exausto, triste, melancólico, a fugir do seu verdadeiro prepósito... Uma caneta, umas partituras autografadas, e a tentativa de fugir ao momento, talvez difícil demais de suportar, talvez acabasse por ser só a minha impressão, talvez tudo não significou nada, talvez... No fundo, uma desilusão... Uma porta, de vidro, enorme... Com uma mala trolley enorme arrastada pela mão esquerda, uma caixa de violoncelo suportada pela mão direita, com vários autocolantes vermelhos e brancos a classificar o interior como frágil, e uma mochila às costas, com algo quase não identificável, mas era apenas um arco partido com cerdas a esvoaçar com o movimento de ar, algumas ainda mesmo presas à vara, ao que parece, também aquele objecto era frágil, por se te partido... Talvez quem transportaria tais objectos também o fosse, apesar de não estar rotulado como na caixa do intrumento que transportava... E nem assim quis mostrar que o era... Ou então não o é, e eu nunca o cheguei a saber, e talvez devesse... Para não continuar na mesma angústia que vai permanecendo dia após dia, sem querer sair da minha alma... Tristeza, angústia, saudade, desilusão, tu... Tudo isto me vem à memória, ao coração... Entretanto a música acaba... Presa aos meus pensamentos, nem sei qual a música que se segue... Nem a ouvi, apesar do som entrar no meu ouvido e muito provavelmente ser recebido e transformado no meu cérebro... É que tudo isto me enche por completo...
Acabo por adormecer, lá para a 1.30h, a pensar em ti, com a música ainda ligada, mas sem a ouvir... O teu som é o único que me vem à cabeça...
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Um dia passado no nada... Isto porque o meu cérebro parou no momento em que adormeci... Faço tudo como se o piloto automático estivesse ligado, sem pensar... Sem pensar em tudo, sem pensar em nada...
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18.17h - Abro a porta cinzenta metalizada, entro no carro, fecho a porta, ponho o cinto de segurança... Olho para o visor, 42 graus ao sol... Depois de procurar no porta-luvas, encontro o cd pretendido... Retiro o que estava no leitor, substituindo-o pelo que eu tinha procurado... Procuro pela faixa certa... Em vez da ser à terceira, é à quinta vez que acerto... Faixa número doze... Ouve-se uma suave voz de um homem, jovem ainda... Ele diz, sem acompanhamento, como que se de uma anacrusa se tratasse: "And so it is..." É Damien Rice com "The blower's daughter"... Lembro-me do post por mim publicado há um mês atrás, no dia 3 de Agosto... O tema principal foi esta mesma linda canção... Na altura apreciava a canção pelo refrão, um pouco também pelo ambiente dramático que ela tem mas agora, percorrendo cada palavra da música, percebo o seu real significado, pelo menos dou-lhe agora um novo e mais lógico significado, um significado próprio, um significado só meu, personalizado... O ciclo está fechado... Depois da tempestade, o céu acalma, vem o sol, a luz, a iluminação... Tudo fica claro, tudo parece transparente agora... Tudo se vê... Agora sim, percebo... Agora sim, aceito... Agora sim, vou esquecendo... Porque no fundo, não passa tudo de juras... Umas mais impossíveis do que outras, mas juras que, na maior parte das vezes nem acabam por se realizar... Ficam suspensas no infinto, um infinito criado por quem as faz e quem as recebe, ou deveria receber... As palavras parecem escolhidas a dedo... Exactamente o que aconteceu, com uma máxima precisão... Pedi, mas o meu desejo não foi concretizado... Assim é a vida... Ou como Lúcia Moniz diria na sua música "Try Again":
"The roses i gave you
Are suddenly fading
Along with your love
Who cares - the credits are rolling
Love's just a movie
There's always an end
Love's... What it is... It just is"
Acabou a música, o leitor de cd passou automaticamente a outra... Como tudo na vida... Passa-se automaticamente para uma nova coisa, variando apenas o espaço entre elas...
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23.41h - Para mim, não foi assim, não funciono como um leitor de cd's... Para mim, acabou e voltou atrás... Como que se aqui, na minha cabeça, na minha alma, no meu coração, alguma coisa tivesse carregado na botão de rewind... Talvez essa coisa tenha sido a vontade, talvez o meu insconsciente, talvez nada disso... Apenas sei que o passado é reatado... Mesmo que na mesma incerteza de sempre, sigo em frente... Talvez amanhã me martirize a ouvir tudo aquilo que evitei ouvir antes de adormecer... Mas tudo isso me leva a lembrar de ti... E as lembranças são a única coisa que tenho tua... Bem, na realidade, tuas não são... São minhas, e talvez por assim ser, estão alteradas pela minha visão, pelos meus sentimentos... Realmente agora apercebo-me que de ti, não tenho nada... Aliás, tenho apenas um pedaço de mim que não te cheguei a dar, por falta de oportunidade, por medo, por incerteza, por dúvida, por receio, por não saber o que sentias, pela tua e pela minha timidez... Lembro-me que nessa estranha e triste noite, depois de chegar a casa, e mesmo com imenso cansaço da noite anterior mal dormida, do exaustivo concerto, de todas as emoções da despedida dos amigos, de ti, só querer uma cama e só pensar em ti, no avião, na música por nós tocada mais cedo, em todos os momentos em conjunto, no futuro sem futuro (!?!), em ti, em mim, num nós inexistente...
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0.07h - Estou com alguma dificuldade em acabar este post, devido às múltiplas actividades por mim exercidas, tudo ao mesmo tempo, que de certa forma me tiram a concentração e o estado de espírito... Também já me estendi bastante, talvez mais do que devia, de modo que o leitor vai achar isto uma seca, pela certa, ou talvez nem chegue a ler até ao fim, sabe-se lá...
Minutos,
horas,
Memórias,
passado,
presente,
futuro...
*(a ninguém, ao vazio, ao nada, flutuando...)
